O 8 de Janeiro de 2023 não foi um evento isolado, mas o ápice de um projeto de erosão democrática que ainda reverbera nas estruturas de poder do Brasil. Naquela data, milhares de apoiadores radicais do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, com o claro objetivo de incitar uma intervenção militar e reverter o resultado legítimo das urnas. Desde então, a resposta institucional tem sido liderada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), evidenciando fissuras e embates ideológicos dentro da própria Corte, especialmente no que tange ao avanço de agendas teocráticas na política brasileira.
Para compreender o atual cenário, é preciso analisar os fatos e os atores envolvidos à luz da ciência política e da sociologia brasileira:
- O 8 de Janeiro e a Defesa da Constituição: O ataque foi financiado e planejado por agentes políticos, empresários e membros das forças de segurança que se omitiram (como o ex-ministro Anderson Torres, preso preventivamente à época). O ministro Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos das milícias digitais e dos atos antidemocráticos, assumiu a linha de frente nas prisões de executores e financiadores. É fundamental separar a “pessoa física” do magistrado de sua função pública: o trabalho de um juiz da Suprema Corte é aplicar a lei e defender a Constituição, agindo como um mecanismo de freios e contrapesos contra investidas golpistas.
- O Conceito de “Evangelistão”: Este é um termo crítico utilizado por sociólogos e analistas políticos para descrever um projeto de poder teocrático que busca corroer o Estado laico brasileiro. Acadêmicos como Jessé Souza frequentemente apontam que setores da extrema-direita e líderes religiosos neopentecostais utilizam o pânico moral para manipular o voto popular, criando uma massa de manobra que age contra seus próprios interesses de classe. O “Evangelistão” não se refere à fé individual dos cidadãos, mas à instrumentalização da religião para oprimir minorias, impor dogmas como políticas de Estado e dominar as instituições.
- André Mendonça e a Indicação Política: O ministro André Mendonça é uma figura central nessa dinâmica. Pastor presbiteriano, ex-Advogado-Geral da União e ex-Ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, ele foi indicado ao STF sob a promessa pública do ex-presidente de colocar um ministro “terrivelmente evangélico” na Corte. Sua nomeação teve uma finalidade política clara: consolidar o apoio da base evangélica e garantir um representante de pautas conservadoras no tribunal.
- Os Embates no STF: As tensões entre a ala garantista/institucional (representada por decanos como Gilmar Mendes e ministros como Alexandre de Moraes e Flávio Dino) e André Mendonça têm se tornado públicas. Gilmar Mendes, em diversas ocasiões, já rebateu duramente Mendonça nos plenários, escancarando o que considera ser um alinhamento político e midiático de Mendonça com o bolsonarismo, incompatível com a neutralidade exigida pela toga, especialmente às portas de processos eleitorais e julgamentos de figuras ligadas ao governo anterior.
A resistência democrática exige clareza: a laicidade do Estado é a única garantia de que o poder público servirá a toda a população, e não a um segmento religioso que busca hegemonia política. As instituições, o judiciário e a sociedade civil precisam atuar em legítima defesa da Constituição, assegurando que o extremismo político disfarçado de religião não conclua o que o 8 de Janeiro tentou iniciar pela força.









