No auge dos anos 70, enquanto o Brasil vivia sob o peso de uma ditadura militar, um rugido elegante ecoava nos subúrbios do Rio de Janeiro. Gerson King Combo, o “James Brown Brasileiro”, não trazia apenas o balanço do funk; ele trazia uma convocação. Ao cantar “Uma chance, só uma chance / Que eu te peço, brother / Para entrar em seu coração”, Gerson não falava apenas de um afeto romântico. Ele falava de humanidade.
Nesta frase, o “amor” é uma ferramenta política. Pedir uma chance para “morar num mundo bonito” e “sentir toda a beleza que é ser black” é, na verdade, um ato de resistência contra o racismo que tenta, há séculos, convencer o corpo negro de que sua existência é feia ou perigosa.
A Conexão Internacional: De Malcolm X aos Panteras Negras

O movimento Black Soul brasileiro não foi um fenômeno isolado. Ele bebeu diretamente da fonte das lutas civis americanas, mas traduziu esse sentimento para a ginga e a dor brasileira:
- Martin Luther King Jr. e o Sonho: A busca pelo “mundo bonito” de Gerson ecoa o discurso “I Have a Dream”. É a face da diplomacia e da esperança por uma integração afetiva e social.
- Malcolm X e a Autodefesa Intelectual: O termo “Brother” (irmão) e a afirmação do “orgulho black” vêm da consciência de raça que Malcolm X pregava — a ideia de que o negro deve amar a si mesmo antes de pedir aceitação.
- Os Panteras Negras: A estética dos bailes Black Rio, com seus cabelos black power e punhos cerrados, era a tradução visual da plataforma de dez pontos dos Panteras. O “sentir a beleza de ser black” era a resposta direta à marginalização estética e social.
A Herança do Racismo: Da Escravidão à Violência nas Favelas
Para entender por que Gerson pedia “uma chance”, precisamos olhar para o que as teses acadêmicas de instituições como UFRJ, UFF e USP chamam de racismo estrutural.
Pesquisas em Ciências Sociais e Psicologia (como as de Gracyelle Costa Ferreira – UERJ/UFRJ e estudos da USP sobre a necropolítica) demonstram que a criminalidade nas favelas do Rio não é um acaso geográfico, mas uma consequência histórica.
- A Herança Colonial: O Rio foi o maior porto escravagista das Américas (Cais do Valongo). A abolição sem inclusão econômica criou o que sociólogos chamam de “cidadania incompleta”.
- A Estigmatização do “Ser Desviante”: Teses de psicologia da UFF apontam que o racismo opera no imaginário policial e social associando a pele negra ao perigo. Isso gera a seletividade penal: o sistema de justiça foca no corpo negro, o que alimenta o ciclo de violência e encarceramento em massa.
- A Violência como Controle: A violência nas favelas é o resultado de um Estado que historicamente chegou a esses territórios apenas através do braço armado, negando a “beleza de ser black” e oferecendo apenas a “vigilância do ser negro”.
Conclusão Propositiva: O Futuro da Cidadania e a Justiça Social
A mensagem de Gerson King Combo ainda aguarda uma resposta plena da sociedade brasileira. Para que a “beleza de ser black” deixe de ser um pedido de chance e passe a ser um direito pleno, precisamos cruzar a arte com políticas públicas eficazes.
Caminhos para a Inclusão e Justiça:
- Reparação Histórica e Econômica: Não basta não ser racista; é preciso ser antirracista através de cotas, fomento ao empreendedorismo negro e investimento maciço em educação nas periferias.
- Reforma do Modelo de Segurança: Transitar de uma segurança baseada no “confronto” para uma baseada na “inteligência” e no respeito aos direitos humanos, desconstruindo o estigma do “inimigo interno”.
- Cidadania Cultural: Fortalecer movimentos como o Black Soul moderno e o Hip Hop, que funcionam como redes de proteção psicossocial e orgulho para jovens de favela.
O “mundo bonito” de Gerson King Combo só será possível quando a justiça social for o ritmo que conduz a nossa democracia. Ser black não deve ser uma luta por sobrevivência, mas, como ele dizia, uma eterna “veneração à beleza”.



