Por Marco Saldanha da Gama 5 de Fevereiro de 2026
Quando pensávamos que a guitarra de Bruce Springsteen já tinha contado todas as histórias da classe trabalhadora americana, “The Boss” regressa, aos 76 anos, com a fúria de um jovem punk. A sua nova canção, “Streets of Minneapolis”, lançada no final de janeiro, não é apenas um single; é um documento histórico, um grito de protesto que ecoa as tensões que fraturam os Estados Unidos neste início de 2026.
Inverno, Sangue e a “Operation Metro Surge”
A música nasce diretamente das manchetes recentes. Em janeiro, o Departamento de Segurança Interna (DHS) lançou a controversa “Operation Metro Surge”, enviando milhares de agentes federais para Minneapolis numa operação de imigração sem precedentes. O resultado foi o caos, culminando nas mortes trágicas de Alex Pretti e Renee Good, dois cidadãos apanhados no fogo cruzado das táticas agressivas do ICE.
Na letra de “Streets of Minneapolis”, Springsteen pinta um cenário desolador: a cidade coberta de gelo e neve, mas “a arder” sob a intervenção federal. Ele narra a história não do ponto de vista dos políticos, mas das vítimas. Descreve as balas de borracha, o som das botas na Nicollet Avenue e o sangue na neve onde Pretti e Good caíram.
A canção é um ato de defesa dos “nossos vizinhos”, independentemente da sua origem. Bruce canta sobre o medo que se instalou numa comunidade onde qualquer pessoa com pele “preta ou castanha” se tornou suspeita, transformando a cidade num campo de batalha onde a liberdade cedeu lugar à força bruta. É, na sua essência, um apelo para que o “estranho no nosso meio” seja tratado com dignidade.
Bruce Springsteen: De Jersey para o Mundo
Para entender a indignação de Springsteen, precisamos de olhar para o seu passado. Nascido a 23 de setembro de 1949, em Long Branch, Nova Jérsia, e criado na modesta Freehold Borough, Bruce Frederick Joseph Springsteen é filho da própria América operária. O seu pai, Douglas “Dutch” Springsteen, era motorista de autocarro e operário fabril, um homem de poucas palavras e muitas lutas; a sua mãe, Adele, secretária, era o pilar de vivacidade da família.
Cresceu a idolatrar a energia de Elvis Presley, a composição dos Beatles e, crucialmente, a consciência social de Bob Dylan e Woody Guthrie. Foram estes últimos que lhe ensinaram que uma guitarra pode ser uma ferramenta para contar a verdade e lutar contra a injustiça.
“Born in the USA”: O Hino dos Filhos da Terra
A nova canção traz inevitavelmente à memória o seu maior êxito (e o mais mal interpretado), “Born in the USA”. Embora muitas vezes usado erroneamente como um jingle patriótico cego, a música é, na verdade, uma reivindicação dolorosa.
Para os milhões de filhos de imigrantes — aqueles cujos pais atravessaram oceanos à procura de uma vida melhor — “Born in the USA” é o seu hino nacional sagrado. A música afirma: “Eu nasci aqui, sofri aqui, lutei as vossas guerras e paguei as minhas dívidas. Esta terra também é minha”. É a banda sonora de quem, tal como Springsteen (que tem raízes italianas e irlandesas), reivindica o seu lugar na América não pelo sangue azul, mas pelo suor e pelo direito de solo. Em “Streets of Minneapolis”, Bruce volta a defender esses mesmos filhos, agora sob ataque nas suas próprias cidades.
A Sombra da Estátua da Liberdade
A ironia dos eventos em Minneapolis contrasta violentamente com o maior símbolo da nação: a Estátua da Liberdade. Oferecida pelos franceses e erguida no porto de Nova Iorque, a “Lady Liberty” não é um guarda de fronteira; é uma anfitriã.
A sua tocha representa a iluminação, o caminho para a liberdade; a tábua na sua mão data a independência americana; mas é aos seus pés que reside o simbolismo mais poderoso — correntes quebradas, simbolizando o fim da tirania e da escravidão. Para os norte-americanos, ela é a promessa de que a nação é um refúgio para os “cansados e pobres”, as “massas amontoadas” que anseiam por respirar livres. A nova música de Springsteen questiona se essa tocha ainda brilha quando operações como a “Metro Surge” transformam cidadãos em alvos.
A Cultura Levanta a Voz
O lançamento de “Streets of Minneapolis” provocou ondas de choque imediatas no mundo das artes.
Billy Bragg, o icónico cantor de intervenção britânico e amigo de longa data de Bruce, foi rápido a reagir, lançando a sua própria faixa “City of Heroes” em solidariedade, declarando: “Quando o Boss fala, a América é obrigada a olhar-se ao espelho. Ele lembrou-nos que a música não serve apenas para dançar, mas para marchar.”
A cantora Lucinda Williams também se juntou ao coro de protesto com “The World’s Gone Wrong”, afirmando em entrevistas que a coragem de Springsteen “abriu as comportas” para que outros artistas expressassem a sua raiva contra a violência estatal.
No mundo do cinema, figuras de Hollywood têm usado as redes sociais para partilhar a letra da música. Atores e realizadores têm elogiado a capacidade de Springsteen de captar a “tragédia cinematográfica e humana” dos eventos em Minneapolis, com muitos a considerarem a canção “o guião da resistência” para 2026.
Enquanto a Casa Branca descarta a música como “opinião irrelevante”, para os fãs e ativistas que enchem as ruas — e agora a internet —, “Streets of Minneapolis” já se tornou mais do que uma canção. É um testamento de que, mesmo aos 76 anos, Bruce Springsteen continua a ser a consciência rouca e inabalável da América.


